Símbolos do Caminho de Santiago

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Os símbolos do Caminho de Santiago são como uma parte do Caminho. Alguns você precisa conhecer, outros são apenas curiosidade – você vai descobrir ao peregrinar. Há outros além dos que você descobrirá aqui, pois vou mostrar os mais importantes, ou, melhor dizendo, mais conhecidos.

Desde o início das peregrinações foram sendo adotados alguns costumes que, séculos mais tarde, consolidaram-se como uma tradição. Alguns dos símbolos, no entanto, são mais recentes, mas já não há como desassociar a rota jacobeia deles.

Obviamente, nada é obrigatório, você não deixará de ser peregrino por não ter seguido algum rito. Imaginou andar dezenas de quilômetros à pé (ou bicicleta) e não ser considerado um peregrino por não ter uma concha? Não faria sentido, não é mesmo?

Lembre: não é a nomenclatura que importa. Se alguém disser que você não é peregrino, isso não muda em nada a sua vida. Afinal, você faz o Caminho de Santiago por você, não por títulos, não é mesmo? 🙂

Nesse artigo vou explicar cada um dos principais símbolos do Caminho de Santiago de Compostela. Sinta-se à vontade para fazer perguntas, no espaço de comentários que fica no fim da página! 😉

A concha de vieira

concha simbolo caminho de santiago de compostela
A concha de vieira é um dos principais símbolos do Caminho de Santiago de Compostela.

Este é um dos principais símbolos do Caminho, praticamente uma identificação do peregrino. A vieira identifica os devotos de Santiago (São Tiago). Geralmente os peregrinos usam-na na mochila, em um colar ou mesmo na roupa, de forma a ficar facilmente visível.

Essa concha é encontrada com frequência no litoral da Galiza (Galícia). Originalmente ele era usada na Idade Média apenas pelos peregrinos que retornavam a suas casas, depois de ter chegado em Santiago de Compostela. Nos tempos atuais a vieira é usada por todos os peregrinos (os que vão e os que retornam).

Algumas fontes contam que o motivo do seu uso é uma forma de homenagem ao santo. Segundo essas fontes, o corpo do Apóstolo chegou à costa da Galiza depois de um tempo perdido no mar, arrastado por correntes marítimas. Ao chegar na Espanha, seu corpo estava intacto e coberto por vieiras.

Outro motivo para seu uso é que, na Idade Média, ela era usada como amuleto contra maldições e pragas.

Você encontrará a concha de vieira em praticamente todo o seu trajeto. Verá conchas em seu estado natural ou com a pintura da Cruz de Santiago em seu lado convexo, em vários tamanhos. Geralmente, já vem furada para você colocar um cordão e pendurá-la (algumas já vem com o cordão).

Atualmente a vieira é um símbolo oficial que identifica os peregrinos que vão a Santiago de Compostela.

vieira estilizada simbolo do caminho
A vieira estilizada foi criada para indicar o caminho a seguir. Porém, acabou que ela não é um indicador preciso (algumas regiões usam a parte fechada para indicar o caminho certo, outras usam a parte aberta). Por isso, ela não é um símbolo oficial de direção do Caminho de Santiago, mas você a verá por todas as partes!

A Flecha Amarela

Mais do que um símbolo, a flecha amarela é encontrada em todo lugar e durante todo o percurso. Isso porque ela é o meio de identificar o trajeto correto a ser seguido pelo peregrino, geralmente em locais onde há dois ou mais caminhos a seguir.

A flecha amarela é um símbolo recente, foi criada na década de 70. Resumidamente, esse símbolo foi criado sem querer, pelo padre Elias Valiña, padre de O Cebreiro, que resolveu sinalizar o Caminho de Santiago.

Para isso, ele pegou uma tinta amarela e saiu desenhando a flecha por todo lugar por onde passava o Caminho, evitando que os peregrinos se perdessem. O intuito era apenas mostrar o caminho correto, não criar um símbolo.

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Você verá a flecha por todos os cantos: nas ruas, nas árvores, nas pedras, até mesmo no chão! Algumas cidades desenham a flecha amarela com pedras, no piso, para orientar o peregrino.

Atualmente ela é o único símbolo oficial que marca a direção que o peregrino deve seguir.

Depois que voltar da peregrinação, sempre que você enxergar uma flecha amarela a viagem virá à sua mente.

Flecha amarela indica o caminho a seguir
A flecha amarela (oficialmente sobre um fundo azul) será vista por todo o trajeto até Santiago de Compostela. Ela orienta os peregrinos em sua caminhada.

O Cajado

O cajado é um instrumento imprescindível para quem vai se aventurar nas rotas até a capital da Galiza. Ele serve de apoio e é útil nas subidas, descidas e em terreno plano. Ele ajuda a diminuir o impacto nos joelhos e a evitar quedas, principalmente em descidas e nos lugares onde há abundância de pedras redondas, como a descida do Alto del Perdón!

Originalmente o cajado era feito de galho de castanheiras ou avelaneiras. Eu disse “era feito” pois atualmente é comum usarmos os bastões de caminhada, principalmente os telescópicos, por sua praticidade, peso reduzido e ergonomia. No entanto, é possível encontrar os cajados tradicionais por todo o caminho, sendo ainda uma escolha de muito peregrino.

cajado de madeira para os peregrinos
Os cajados de madeira ainda são muito utilizados, principalmente por seu simbolismo. Porém, gradativamente vem sendo substituído pelos bastões de caminhada.

O cajado tinha, na Idade Média, outro significado especial: representava a terceira pessoa da Santíssima Trindade e a também terceira perna.

Outro motivo para levar um cajado, ao menos antigamente, era afastar animais ferozes (como cães) e se proteger de outros perigos que surgissem durante a caminhada.

Seja qual for sua escolha, os naturais ou os industrializados, o cajado (ou bastão de caminhada) é importantíssimo, apesar de muitas vezes não parecer.

Se você optar pelos bastões de caminhada ao invés dos cajados de madeira, é interessante levar dois. Isso lhe dará muito mais apoio, equilíbrio e segurança.

A Cruz de Santiago

cruz de santiago matamoros
Também vista por todos os lugares, a Cruz de Santiago tem o formato de uma espada.

Com a forma de uma espada (simbolizando a reconquista da Península Ibérica), tem sua ponta como uma lâmina, que pode ser enfiada no chão.

Primeiramente usada pela Ordem dos Cavaleiros de Santiago, representava o apóstolo Santiago, defensor dos cristãos na Guerra da Reconquista. Aliás, por sua “participação” nessa guerra que ficou conhecido como Santiago Matamoros (hoje tentam evitar esse “sobrenome” por ser politicamente incorreto, apesar de fazer parte da história).

Atualmente a Cruz de Santiago está presente em chaveiros, bonés, camisetas, na concha de vieira e em diversos outros lugares. É possível encontrar, inclusive, abridores de carta com esse formato.

A famosa tarta Santiago, tradicional da Galícia, tem a cruz desenhada na parte superior, com açúcar (o açúcar cobre toda a parte de cima da torta, exceto onde tem o desenho da cruz).

tarta santiago da galicia
Até na culinária o símbolo da Cruz de Santiago é utilizado! Na foto, a tarta santiago, que é produzida na Galiza.

O Tau

No alfabeto hebraico e em algumas outras línguas, o Tau é a última letra, diferentemente do nosso alfabeto, onde ele representa a letra “T”. O Tau representava o cumprimento da palavra de Deus revelada. Era costume dos israelitas marcar com esse sinal a testa dos seus filhos para, assim, protegê-los da ira divina.

No Caminho de Santiago, a Ordem Monástica de Santo Antônio (San Antón) foi instituída por ordem do Rei Afonso VIII, em Castrojeriz. Uma das atividades a que se dedicavam os Antonianos (membros dessa ordem) era cuidar dos peregrinos enfermos que chegavam (Castrojeriz fica no Caminho Francês). Davam a esses peregrinos um escapulário com a cruz em forma de Tau para protegê-los dos perigos e doenças do Caminho.

tau símbolo franciscanos
Usada por São Francisco, o Tau é muito utilizado pelos peregrinos como amuleto de proteção contra enfermidades e perigos do Caminho.

Outro significado: São Francisco de Assis usava o Tau como assinatura, sendo até hoje o símbolo que representa a Ordem Franciscana. A cruz em forma de “T” é considerada um sinal de conversão, proteção e penitência. Geralmente os Franciscanos usam o Tau preso ao pescoço por uma cordinha com três nós*.

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Ao chegar em Santiago de Compostela, não deixe de visitar a Catedral de São Francisco, a poucos metros da Praça do Obradoiro (onde fica a Catedral de Santiago).

* Os três nós de São Francisco significam a castidade, a pobreza e a obediência.

A credencial do peregrino

A credencial merece um artigo à parte. Porém vou explicar de forma sucinta aqui.

Ela não é bem um símbolo, mas um documento exclusivo dos peregrinos que seguem as rotas que levam a Santiago de Compostela a pé, a cavalo ou de bicicleta.

Esse documento é imprescindível para quem vai peregrinar, pois dá direito ao portador de pernoitar em albergues exclusivos de peregrinos, além de comprovar sua passagem pelos lugares através de carimbos.

Para mais informações sobre o assunto e para saber como adquirir a sua credencial, clique nesse link.

E você, conhecia esses símbolos? Conhece mais algum que não foi citado neste artigo? Deixe seu comentário sobre o assunto no formulário ao fim da página! Sua participação é muito importante!


4 Comments
  1. felipe says

    Olá Claudio, muito bom ter encontrado um relato tão detalhado e inspirador como o seu… Tenho algumas dúvidas mas, como não achei seu dado de contato, escrevo aqui sobre o “cajado”… Acredito que a única opção seria comprar lá, no inicio da caminhada, certo? Tem alguma dica (além das que voce já mencionou acima) sobre altura do deste cajado (ou bastão)?

    1. Claudio Bittencourt Pacheco says

      Olá Felipe!

      Se a sua opção for pelo bastão, você encontra em lojas especializadas em esportes de aventura e na Decathlon. Eles tem a altura regulável, então se preocupe mais com o peso e anatomia da empunhadura (escolha uma q não seja muito dura e que você se sinta bem. Apesar de que há pouca variação nos formatos das empunhaduras).
      Agora, se escolher o cajado, você pode comprar lá, o tamanho é meio padrão. Ou então fazer o seu, se encontrar um galho que possa transformar em um bastão.
      Quando eu vou, eu levo os bastões de caminhada em uma sacola separada, então despacho a sacola para ter certeza q não terei problema ao embarcar. Se acontecer da bagagem ser extraviada, o prejuízo não é tão grande.

      Espero ter solucionado a sua dúvida!

      Um abraço e bom Caminho!

  2. felipe says

    Obrigado pela resposta, Claudio.
    Tenho planos de ir agora em maio/junho… e seria interessante bater um papo com voce, se por acaso tiver disponibilidade.
    Também moro em Curitiba e poderíamos tomar um café!
    Abraço

    1. Claudio Bittencourt Pacheco says

      Olá Felipe!

      Desculpe a demora para responder, fiquei de molho por uma semana por causa da Covid, acabei me desorganizando. Podemos conversar sim, se está em Curitiba fica muito mais fácil! Um café seria uma ótima ideia, vamos pensar em uma data. 🙂

      Um abraço e bom Caminho!

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